Thor: Ragnarok

Direção de Taika Waititi. Com Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Tom Hiddleston, Tessa Thompson, Cate Blanchett, Jeff Goldblum, Idris Elba, Karl Urban, Anthony Hopkins, Benedict Cumbertbatch e Taika Waititi.

Extensão do bromance é só uma das qualidades do longa

Goste ou não, a estrutura dos filmes da Marvel será sempre a mesma, pelo menos até a conclusão da Fase Três com a segunda parte de Guerra Infinita. O próprio Kevin Feige já disse que esse é o jeito do estúdio, e se o público está gostando, porque mudar? A questão é que, com o passar do tempo, os filmes começaram a dar sinais de desgaste, e se durante uma sessão leve -de quase duas horas- vendo seus heróis favoritos a diversão era garantida, após deixar o cinema as lembranças tornavam-se facilmente esquecíveis. Tive essa sensação a cada nova experiência, mas só ficou evidente depois que vi Doutor Estranho, o último filme da Marvel em 2016, e as suas semelhanças com o Homem de Ferro. Bom, o certo é que o estúdio também parece ter percebido o cansaço, o que fez com que 2017 fosse muito mais audacioso. Em abril, Guardiões Vol.2. Em julho, Homem Aranha: De Volta ao Lar. E agora para fechar o ano marvelístico a surpresa Thor: Ragnarok, que comandado pelo excêntrico Taika Waititi, não é só o melhor filme da franquia como ainda se revela um dos filmes mais ousados do universo. Uma comédia assumida, com senso de humor agradável, cenário coloridíssimo e um elenco de peso, que tenta driblar, com estilo, a fadiga.

Após uma travessia malsucedida até Asgard, Thor (Hemsworth) vai parar em Sakaar, um planeta desconhecido onde é feito prisioneiro pelo extravagante Grão-Mestre (Goldblum). Lá, ele é feito escravo e obrigado a enfrentar o campeão de um torneio entre gladiadores: ninguém menos do que Hulk (Ruffalo), com quem ele nunca teve uma relação amigável. O Deus do Trovão tem que lutar para sobreviver e correr contra o tempo para formar uma equipe de ‘Vingadores’ a fim de impedir que a poderosa Hela (Blanchett) destrua Asgard e dessa forma cumpra a profecia do Ragnarok. Todos sabem que o filho de Odin sempre foi meio sisudo. Nos medianos Thor (2011) e Thor: O Mundo Sombrio (2013) essa característica fica bem clara. Mas as expressões antiquadas e a seriedade no olhar foram postas de lado. Nesse terceiro filme, a narrativa abraça o humor e o humor abraça o asgardiano. Uma mudança brusca que ignora o passado do protagonista e de outros personagens, soando incoerente se olharmos para o todo, porém, se analisada individualmente cumpre bem aquilo que se propõe a fazer. Seguindo a vibe de Guardiões de não se levar a sério, o longa reúne um time de peso, hábil fisicamente e também com plenos poderes sobre o humor.

Chris Hemsworth, pela primeira vez, demonstra estar a vontade no papel. Bem na comédia, seu protagonista que era um dos menos carismáticos entre os Vingadores, ganha mais relevância e polivalência para as próximas dinâmicas de grupo. Ruffalo é outro que abandona o jeitão sério do cientista para fazer do Dr. Banner um tipo desajustado e indeciso (o qual lembra muito o Clark Kent de Christopher Reeve), e de seu Hulk um monstro verde bobão, inconsequente e engraçado, completamente diferente do raivoso de outrora, mas ainda assim fascinante. Hiddleston muda pouco. Continua o mesmo traíra de sempre, só que menos vilão e mais anti-herói, o que colabora para manter a elegância obscura do personagem. Tessa Thompson como Valkiria é quem tem o arco dramático mais interessante, com motivações palpáveis, e por isso desperta grande empatia do espectador. Goldblum interpreta Goldblum. O exótico Grão-Mestre é uma figura magnética em cena, com seus monólogos desconexos e o jocoso tom cordial de fazer piada. Por ultimo, Korg. Dublado pelo diretor Taika Waititi, desponta como o coadjuvante mais simpático, o qual gostamos logo de cara pela sua simplicidade, as piadas pontuais e o cativante senso de justiça.

Não pense que esqueci de Cate Blanchett. A atriz compõe uma Hela com motivações que já conhecemos, embora nunca pareça afetada. Vilã típica dos quadrinhos, tem seus trejeitos peculiares e é capaz de representar uma forte ameaça na trama (despedaçar o Mjolnir não é pouca coisa), mas é prejudicada pelas poucas cenas, um equívoco ocasionado pelo roteiro, que enxerga Sakaar como sendo mais importante que Asgard, lugar onde ela se encontra o tempo todo. Ainda assim é curioso ver como as personagens femininas ganharam merecida importância na narrativa. Hela e Valkiria são independentes, tem poder e jamais se rendem a fúteis casos amorosos. Roteirizado por Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost, todos envolvidos com produções de desenhos animados, o que explica entre outras coisas a agilidade dos diálogos, e dirigido pelo neo-zelandês Taika Waititi (O que Fazemos nas Sombras, 2014), que imprime uma comédia simples e objetiva, Thor: Ragnarok bom humor à embates bem elaborados configurados por ótimos efeitos especiais. Uma produção de ritmo acelerado, uma trilha sonora tecno-pop anos 70 que leva o público a viajar pelo espaço sem muito esforço, além de uma ambientação estilosa em total sintonia com a proposta.

NOTA: 8,5

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Blade Runner 2049

Direção de Denis Villeneuve. Com Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Dave Bautista, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Mackenzie Davis, Hiam Abbass e Barkhad Abdi.

A fotografia de Roger Deakins rende quadros maravilhosos

Estreia de Blade Runner 2049, sequência de Blade Runner (O Caçador de Androides por aqui), fracasso de bilheteria que depois viria a se tornar cult. Sala praticamente vazia mesmo depois do marketing pesado, e de um elenco e realizadores consagrados. Então qual o motivo de tantos assentos desocupados? Sequencias costumam gerar desconfiança, mas creio que não é uma boa desculpa. A resposta mais plausível é: o filme deveria ser, mas não é para qualquer um.  Assim como o antecessor, sugere ação, e até exibe algumas cenas mais enérgicas, porém, está longe de ser o foco dos idealizadores. Na verdade, a ação nesse caso é diferente. Sequência de acontecimentos numa narrativa, o ato aqui corresponde a fotografia, a trilha sonora e a uma direção cuidadosamente observadora, que levam o público a uma completa imersão naquele universo distópico de 2049, que parece soar tão real quando pensamos nos caminhos tristes que escolhemos hoje. Grandioso, Blade Runner 2049 conduz o espectador a uma experiência cinematográfica reflexiva e contemplativa. Uma narrativa que não busca saídas fáceis, e que só não atinge o ápice devido a falta de um ‘tears in te rain’.

Durante mais uma missão, cujo objetivo é ‘aposentar’ velhos replicantes, um jovem blade runner chamado K (Gosling) descobre um mistério que esteve enterrado há muito tempo. As pistas achadas o levam ao encontro de Rick Deckard (Ford), um velho caçador de androides que estava desaparecido há 30 anos, e que pode ajudá-lo numa perigosa investigação envolvendo a companhia do cruel Niander Wallace (Leto). Se a Los Angeles distópica de 2019 imaginada por Ridley Scott em Blade Runner já impressionava pela forma como foi construída -ruas escuras e esfumaçadas indicavam a instabilidade do ambiente e o clima quase sempre chuvoso representava com muita eficácia a melancolia de seus inóspitos cidadãos, que pareciam cada vez mais próximos da artificialidade, a atmosfera criada pela direção de Denis Villeneuve, a fotografia majestosa de Roger Deakins e a trilha-sonora aguda do maestro Hans Zimmer na Califórnia de 2049 não só mantém a coerência do primeiro como graças a tecnologia, permite-se ir além do que já foi feito, conferindo ainda mais realidade a um futuro que está longe de ser habitável. O espaço apropriado para discussões mais profundas.

A câmera de Villeneuve nos coloca sempre como testemunhas do caos

Zimmer emprega uma batida firme em momentos decisivos da narrativa, ao passo que sabe orquestrar uma trilha sonora mais calma que lembra àquela de Vangelis, mas que acima de qualquer coisa soa original. Já Deakins, se não levar o Oscar dessa vez apenas confirmará a ausência de conhecimento da academia perante a uma obra que vem sendo genial há anos. O encarregado da fotografia desponta mais expressivo do que nunca, ganhando até mais oportunidades dentro da narrativa para desfilar suas habilidades. De capturas frias em meio a cidade afundada nas sombras, a uma passagem no deserto quente e empoeirado de uma cidade arrasada, Deakins ainda evoca o colorido em raros momentos de satisfação, brincando com cores fortes que exalam esperança e pitadas de humanidade. A harmonia entre 2019 e 2049 é sentida e visivelmente expandida com base no sublime trabalho dele. Municiado por colaborações infalíveis, Villeneuve teve somente que fazer o que vem fazendo desde Incêndio. Subindo um degrau a cada nova produção, o diretor estabelece o suspense com a inteligência de sempre, nos diverte com a tensão e não poupa em mistérios.

Embora conte com o auxílio de um roteiro engenhoso e calculista escrito por Hampton Fancher (Blade Runner, 1982) e Michael Green, e um visual espetacular, o longa carece de atuações inspiradas. Ryan Gosling, interpretando aqui basicamente um Rick Deckard jovem, é sempre um chamariz. Muitos o consideram superestimado e pouco expressivo, mas o fato é que o ator tem presença, e digamos que o papel de replicante, nesse caso, nem exige demais. Robin Wright emula sua personagem de House of Cards, o cabelo, inclusive é igual. Jared Leto é cansativo e seus diálogos de biscoito da sorte não ajudam. Harrison Ford você já conhece e sabe que não pode esperar nada além de muito esforço. Boas mesmo são as meninas do elenco. Figuras complexas, Ana de Armas (Joi) e Sylvia Hoeks (Luv) extraem o que há de melhor em suas personagens. Enquanto uma é um programa de computador que exala motivações humanas, a outra confere uma determinação e obediência genuína de uma máquina, que causam um desconforto muito atraente. E não poderia deixar de fazer uma menção honrosa a Dave Bautista. Em poucos minutos o ator nos faz esquecer do espalhafatoso Drax de Guardiões, com uma atuação comovente, sustentada por um olhar miserável.

Blade Runner 2049 é um ótimo exemplo de como dar continuidade a uma história. A narrativa respeita sua origem em todos os aspectos, e sabe que tem todas as armas para explorar ainda mais sua rica temática. Sinto que o filme abandona erroneamente a emoção, quando poderia usá-la a seu favor, tendo em vista o material que tem nas mãos. No entanto, também sou capaz de entender que a tristeza pode estar naquele mundo devastado, vazio e sombrio, onde ser humano é uma raridade. Blade Runner 2049 não vê suas falhas comprometerem seu desenvolvimento, e ruma para se tornar lá na frente o clássico que o filme de 1982 é para nós atualmente.

NOTA: 9

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It: A Coisa – (It)

Direção de Andy Muschietti. Com Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgard, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert e Stuart Hughes.

‘Hey Georgie, do you wanna a balloon?’

Há 27 anos era lançado diretamente para a televisão americana o filme IT: Uma Obra Prima do Medo. Baseado num livro com mais de 1.000 páginas escrito pelo mestre do terror Stephen King, o telefilme tirou o palhaço Pennywise (ou apenas IT, pois é capaz de assumir várias formas) do papel para assombrar os sonhos dos espectadores. Responsável por dar vida ao personagem, Tim Curry fez da criatura um marco, e entre balões e bueiro conseguiu que muita gente flutuasse com ele. Embora tivesse o palhaço dançarino como centro das atenções, a obra, muito rica em conteúdo, trazia ainda questões controversas que hoje resultariam num belo debate. Que tal uma orgia envolvendo crianças? Abuso sexual? Pois bem, de acordo com a maldição, a Coisa ressurge a cada 27 anos para se alimentar, e sem nenhum atestado de que seja coincidência (1990-2017=27 anos), ela está aqui novamente para provar que o tempo hibernando lhe fez bem. Fiel ao original, mas ciente da necessidade de renovar, IT: A Coisa retorna muito mais envolvente, empenhada em fornecer sustos por meio de um Pennywise mais sinistro e composto por um elenco mirim cheio de carisma e talento.

Na trama, Bill (Lieberher), Ben (Ray Taylor), Beverly (Lillis), Mike (Jacobs), Richie (Wolfhard), Eddie (Dylan Grazer) e Stan (Oleff) formam O Clube dos Perdedores. Ao darem conta de que uma estranha maldição assombra a cidade de Derry, o grupo coloca seus medos à prova para tentar por um fim na desgraça, que pode ser qualquer coisa, mas que aparece na figura de um palhaço que atende pelo nome de Pennywise. Impulsionado pelo sucesso recente de Stranger Things e outros êxitos como E.T: O Extraterrestre (1982) e Os Goonies (1985), o filme apresenta uma narrativa que, embora traga um vilão e o terror como premissa, na verdade volta seu olhar para as crianças e um senso de aventura-dramático que se revela uma escolha muito acertada. Beneficiados por um roteiro preocupado com o desenvolvimento dos personagens, diferente do telefilme de 90, o ótimo elenco infantil dispõe de tempo para trabalhar e quem ganha com isso é o público e a narrativa. O público, porque consegue estabelecer um vinculo emocional com aquelas crianças, e a narrativa, porque pode se aprofundar nas relações e a dinâmica do grupo com naturalidade. 

Agora vamos conversas sobre Pennywise. Do ponto de vista de atuação, Bill Skarsgard já começa assustando pela voz. Ele alterna facilmente entre um timbre infantil para um mais feroz. E o que falar do trabalho visual na cena do bueiro? A pedido do diretor, Skarsgard realiza a façanha aterrorizante de olhar com o olho direito para Georgie enquanto o seu olho esquerdo mira o espectador. No mais, o ator é auxiliado por vários aspectos técnicos como, por exemplo, o excelente trabalho dos efeitos especiais que, além de brincarem com as transformações da Coisa, brindam o público com muitos jump-scares (técnica recorrente em filmes de terror, que consiste em surpreender a plateia com mudanças abruptas de algo ou alguma coisa), os quais são bem executados tecnicamente, mas sem tanto efeito na hora de gerar sustos. E aí está o grande problema do filme: a pouca eficiência na hora de surpreender com bons sustos. Conduzida por uma inquietante trilha sonora, a presença de Pennywise é impactante e incomoda, porém, o espanto não nos atinge com a mesma intensidade, o motivo: os trailers adiantaram quase todas as aparições do demônio, resultando em frustração.

Dirigido por Andy Muschietti (Mama, 2013), homem cuja câmera não poupa em violência, It: A Coisa faz uma releitura interessante sobre o filme original, mas demonstra saber inovar quando preciso. Prova disso é que apesar de compreender a importância de que seu vilão tem na história, o filme não se prende a isso. Ao contrário, apresenta uma narrativa muito mais engajada no desenvolvimento das crianças, a luta contra os seus medos e o amadurecimento delas em meio a uma atmosfera onde até mesmo os adultos chegam a despertar certa fobia. Basta reparar a influência negativa que os pais presentes exercem sobre os filhos. Nenhuma das crianças escapa de ser coagida de alguma maneira, sendo elas, por vezes, pesada. O que nos leva a outra decisão corajosa do roteiro escrito por Cary Fukunaga (Beasts of No Nation, 2015) e Gary Dauberman, que sem receio, discute abertamente temas como incesto, bullying, machismo e racismo, além de outros. Cheio de ritmo, tensão e uma inesperada veia cômica, a produção termina sendo uma das boas surpresas do ano e de um gênero que custa a vender novidades. Recomendo a você permitir-se flutuar.

NOTA: 8,5

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Bingo: O Rei das Manhãs

Direção de Daniel Rezende. Com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Emanuelle Araújo, Soren Hellerup, Tainá Muller, Ana Lúcia Torre, Pedro Bial e Cauã Martins.

Alô, criançada (e mulherada)! O Bingo chegou!

O palhaço é uma figura curiosa. Está presente no circo, nas festas de criança e também nos filmes de terror. Pessoalmente sempre tive receio de qualquer pessoa que esteja interpretando um. Não sei se pelas enérgicas expressões corporais, as maquiagens carregadas, as risadas excêntricas ou mesmo as abordagens para com o interlocutor. Enfim, não são todos que são acometidos por esse medo assim como eu, portanto, o que vem a seguir é algo que nunca pensei que fosse dizer, sentir. Pela primeira vez na minha vida quis ver mais do palhaço em cena. E o responsável por isso é o Bingo. Ou o Vladimir Brichta. Ou o diretor Daniel Rezende. A única certeza é de que Bingo: O Rei das Manhãs é um daqueles filmes inerente ao sucesso e impossível de não gostar. Sua narrativa consegue sintetizar a loucura que foi a década de 80 com seus exageros, extravagâncias, amores, sexualidade e o politicamente incorreto, em apenas um personagem, propondo um prazeroso estudo do mesmo. Uma mistura de ficção com realidade, que resulta na jornada de um legítimo anti-herói em busca dos holofotes.

Livremente inspirado na vida de Arlindo Barreto, o primeiro interprete do palhaço Bozo, a trama conta a história de Augusto Mendes (Brichta), um ator de pornochanchadas cuja vida muda radicalmente após passar num teste para viver o palhaço Bingo e assim assumir um programa matinal transmitido cinco vezes por semana. O protagonista não recebe a alcunha por acaso. O nome Augusto remete ao tipo de palhaço mais conhecido no Brasil. É extravagante, absurdo, pícaro, mentiroso, surpreendente, provocador, livre e anárquico. Todas essas característica estão presentes, e o ator Vladimir Brichta demonstra entender cada uma delas para compor o complexo personagem. O elenco está fantástico (Ana Lúcia Torre, Leandra Leal, o garoto Cauã Martins), no entanto é o ator quem transforma Bingo num tipo admirável, na linha do ame-o e odeie-o. Com ou sem a ‘máscara’ ele entrega emoção, energia, enfileira frases de efeito e dá o toque final exibindo uma capacidade sensacional para o humor físico. Porém, “De que adiante ser o Bingo se ninguém mais pode saber?”.

Esse duro questionamento feito pelo filho Gabriel (Martins), unica pessoa além da mãe por quem Augusto nutre um amor tangível -construído ao longo da trama de maneira orgânica e sem pieguices, vem como um soco direto no estomago. A partir daí a narrativa, que mesmo já vindo numa crescente, mergulha numa discussão muito mais triste, abraçando o lado sombrio dele. Como um camaleão, Brichta muda completamente o tom de sua atuação. A irreverência e a alegria dão lugar a uma vida de prazeres fáceis e sem limites. Suas relações também mudam. Até mesmo o clichê de ‘esquecer uma data importante’ recebe contornos dramáticos. Em meio a essas várias mudanças o filme jamais se perde e conta com a ajuda de aspectos técnicos para manter-se coerente e maravilhar o espectador. Um deles é a montagem. A alternância entre planos ocorre com fluidez e respeita o ritmo. Ora lento e deprimido, ora ágil e cheio de vida. O figurino, em sintonia com o estado emocional do protagonista é outro que passa por transformações. Comparecer a um culto vestindo preto não é lá muito casual.

A trilha sonora, recheada de hits dos anos 80 termina sendo mais um elemento de função relevante, pois transporta o público para aquele período. Entretanto, é a direção de Daniel Rezende que chama a atenção. Vencedor do Bafta de Melhor Montagem por seu trabalho em Cidade de Deus, logo em sua primeira experiência atrás das câmeras arquiteta um universo sólido ao passo que demonstra habilidade para manipulá-lo. Desde planos onde vemos o distanciamento emocional de Augusto e Gabriel simbolizado por uma simples variação de foco, até enquadramentos mais elaborados, quando por exemplo, a mãe de Augusto, uma renomada atriz que caiu no ostracismo, encara um enorme retrato dela mais jovem no auge do sucesso e o mesmo encontra-se iluminado enquanto ela não. Uma bela metáfora que remete a um passado sob os holofotes contrastando com um presente sem luz. O diretor nos surpreende ainda com duas situações de subjetividade mental bem impactantes, e que por alguns segundos obrigam o público a questionar a veracidade do que está acontecendo. 

Bingo: O Rei das Manhãs é mais uma manifestação da qualidade do cinema nacional. Usando de licença poética para ‘viajar’ sem ofender, apresenta uma narrativa cheia de vida, cores fortes, divertimento e muita safadeza. Entende perfeitamente onde quer chegar e a história que deseja contar. Desse modo nos leva sem muito esforço para seu mundo, despertando em nós uma vontade absurda de permanecer por lá para assistir muito mais do palhaço que nasceu para ser mariposa em meio a tantas formigas e cigarras. O anti-herói das crianças não é brincadeira não, viu?!

NOTA: 9

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O Filme da Minha Vida

Direção de Selton Mello. Com Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Vicent Cassel, Selton Mello, Bia Arantes, Rolando Boldrin, Ondina Clais e João Prates.

Amor em meio a melancolia

Entre comédias escrachadas de gosto duvidoso estreladas por Leandro HassumPaulo Gustavo e cia. e filmes onde crimes e favelas são o centro das atenções, damos de cara com algumas produções de menor orçamento e sem tanto apelo midiático, porém, que trazem consigo valores grandiosos e uma ambição gigantesca quando se trata de entregar ao público brasileiro algo completamente diferente do que ele está acostumado a ver, falando pelo menos nos cinemas convencionais. É por conta dessa carência de conteúdo fora do comum, que inspiram e trabalham bem com vários aspectos da sétima arte que O Filme da Minha Vida surge como uma obra que, apesar de problemas pontuais, salta aos olhos. O terceiro longa-metragem de Selton Mello (antes vieram Feliz Natal, 2008 e O Palhaço, 2011) é um filme que requer atenção, paciência e não só precisa, como merece ser degustado. Narrado de maneira poética, preocupa-se em incomodar o ‘espectador’ com sua melancolia e nostalgia.

Baseado no livro Un Padre de Película, de Antônio Skármeta, a trama conta a história de Tony Terranova (Massaro), filho de pai francês e mãe brasileira e como ele mesmo diz no início do filme “dormir não é algo que ele faz muito bem”. Quando volta para casa após uma temporada de estudos na capital, o professor Tony tem de encarar a lacuna deixada pela partida sem explicações do Pai, Nicolas (Cassel), que segundo Paco (Mello), amigo da família, é um homem do mundo e que voltará quando quiser voltar. Personagens ricos em personalidade, alguns frustrados, outros sonhadores, mas todos repletos de vontades que vão além do trivial. Ainda que o foco esteja na relação pai/filho, nenhuma figura deixa de receber a devida atenção graças a direção observadora e precisa de Selton Mello, que entende a importância de todos os personagens e o drama no qual cada um está inserido. Em troca recebe de todo o elenco atuações eficientes, que correspondem rapidamente ao que são exigidos.

Em plena sinergia com o material humano, o realizador ganha o suporte de outros aspectos técnicos bem executados. Ambientado no Rio Grande do Sul, a narrativa traz uma fotografia coerente com a fictícia cidade de Remanso. O frio é sentido pelo design de figurino, mas aquele calorzinho do sol de inverno se torna crível devido a excelente fotografia exibida. O tom sépia e a paleta de cores saturadas são elementos importantíssimos para destacar a época do filme, no caso, os anos 50, e principais responsáveis em transmitir a melancólica e o clima de nostalgia para o espectador. Além do visual, a trilha sonora, com suas belas canções francesas e algumas populares brasileiras, faz questão de facilitar a entrada naquela na atmosfera bucólica. A montagem, outro artifício encarregado de mover a narrativa contribui de maneira mais tímida, em certos momentos prejudicando o desenvolvimento. As rimas visuais são sutilmente charmosas, em contrapartida os flashbacks cansam e ferem o ritmo.

Contando com um roteiro bem amarrado escrito por Selton Mello em parceria com Marcelo Vindicato, O Filme da Minha Vida usa da licença poética da qual se baseia para apresentar um argumento de diálogos reflexivos, muitos deles provocados por perguntas simples, mas com respostas complexas (“Por que  o senhor considera seu trabalho nobre?/ Porque é bom saber que estou levando as pessoas para fazer algo“, pergunta Tony ao maquinista que responde com um orgulho admirável.) Embora algumas conversas resultem até mesmo num inesperado momento de graça, a grande maioria delas são pausadas e aí entra a paciência a qual já fiz menção. Não há dinâmica entre os atores, apesar da química entre os mesmos. Todo diálogo parece durar uma eternidade em prol de um final filosófico. Somado a essa sofrência, a trama tem uma reviravolta digna de novelão, que apesar de manter a coesão da narrativa soa meio que exagerada. Um filme demasiado poético, as vezes árduo, mas que se faz necessário em meio a tantas besteiras que a gente vê por aí. É tudo uma questão de treinar nosso olhar para receber melhor o diferente.

NOTA: 7,5

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