It: A Coisa – (It)

Direção de Andy Muschietti. Com Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgard, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert e Stuart Hughes.

Há 27 anos era lançado diretamente para a televisão americana o filme IT: Uma Obra Prima do Medo. Baseado num livro com mais de 1.000 páginas escrito pelo mestre do terror Stephen King, o telefilme tirou o palhaço Pennywise (ou apenas IT, pois é capaz de assumir várias formas) do papel para assombrar os sonhos dos espectadores. Responsável por dar vida ao personagem, Tim Curry fez da criatura um marco, e entre balões e bueiro conseguiu que muita gente flutuasse com ele. Embora tivesse o palhaço dançarino como centro das atenções, a obra, muito rica em conteúdo, trazia ainda questões controversas que hoje resultariam num belo debate. Que tal uma orgia envolvendo crianças? Abuso sexual? Pois bem, de acordo com a maldição, a Coisa ressurge a cada 27 anos para se alimentar, e sem nenhum atestado de que seja coincidência (1990-2017=27 anos), ela está aqui novamente para provar que o tempo hibernando lhe fez bem. Fiel ao original, mas ciente da necessidade de renovar, IT: A Coisa retorna muito mais envolvente, empenhada em fornecer sustos por meio de um Pennywise mais sinistro e composto por um elenco mirim cheio de carisma e talento.

Na trama, Bill (Lieberher), Ben (Ray Taylor), Beverly (Lillis), Mike (Jacobs), Richie (Wolfhard), Eddie (Dylan Grazer) e Stan (Oleff) formam O Clube dos Perdedores. Ao darem conta de que uma estranha maldição assombra a cidade de Derry, o grupo coloca seus medos à prova para tentar por um fim na desgraça, que pode ser qualquer coisa, mas que aparece na figura de um palhaço que atende pelo nome de Pennywise. Impulsionado pelo sucesso recente de Stranger Things e outros êxitos como E.T: O Extraterrestre (1982) e Os Goonies (1985), o filme apresenta uma narrativa que, embora traga um vilão e o terror como premissa, na verdade volta seu olhar para as crianças e um senso de aventura-dramático que se revela uma escolha muito acertada. Beneficiados por um roteiro preocupado com o desenvolvimento dos personagens, diferente do telefilme de 90, o ótimo elenco infantil dispõe de tempo para trabalhar e quem ganha com isso é o público e a narrativa. O público, porque consegue estabelecer um vinculo emocional com aquelas crianças, e a narrativa, porque pode se aprofundar nas relações e a dinâmica do grupo com naturalidade. 

Agora vamos conversas sobre Pennywise. Do ponto de vista de atuação, Bill Skarsgard já começa assustando pela voz. Ele alterna facilmente entre um timbre infantil para um mais feroz. E o que falar do trabalho visual na cena do bueiro? A pedido do diretor, Skarsgard realiza a façanha aterrorizante de olhar com o olho direito para Georgie enquanto o seu olho esquerdo mira o espectador. No mais, o ator é auxiliado por vários aspectos técnicos como, por exemplo, o excelente trabalho dos efeitos especiais que, além de brincarem com as transformações da Coisa, brindam o público com muitos jump-scares (técnica recorrente em filmes de terror, que consiste em surpreender a plateia com mudanças abruptas de algo ou alguma coisa), os quais são bem executados tecnicamente, mas sem tanto efeito na hora de gerar sustos. E aí está o grande problema do filme: a pouca eficiência na hora de surpreender com bons sustos. Conduzida por uma inquietante trilha sonora, a presença de Pennywise é impactante e incomoda, porém, o espanto não nos atinge com a mesma intensidade, o motivo: os trailers adiantaram quase todas as aparições do demônio, resultando em frustração.

Dirigido por Andy Muschietti (Mama, 2013), homem cuja câmera não poupa em violência, It: A Coisa faz uma releitura interessante sobre o filme original, mas demonstra saber inovar quando preciso. Prova disso é que apesar de compreender a importância de que seu vilão tem na história, o filme não se prende a isso. Ao contrário, apresenta uma narrativa muito mais engajada no desenvolvimento das crianças, a luta contra os seus medos e o amadurecimento delas em meio a uma atmosfera onde até mesmo os adultos chegam a despertar certa fobia. Basta reparar a influência negativa que os pais presentes exercem sobre os filhos. Nenhuma das crianças escapa de ser coagida de alguma maneira, sendo elas, por vezes, pesada. O que nos leva a outra decisão corajosa do roteiro escrito por Cary Fukunaga (Beasts of No Nation, 2015) e Gary Dauberman, que sem receio, discute abertamente temas como incesto, bullying, machismo e racismo, além de outros. Cheio de ritmo, tensão e uma inesperada veia cômica, a produção termina sendo uma das boas surpresas do ano e de um gênero que custa a vender novidades. Recomendo a você permitir-se flutuar.

NOTA: 8,5

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Bingo: O Rei das Manhãs

Direção de Daniel Rezende. Com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Emanuelle Araújo, Soren Hellerup, Tainá Muller, Ana Lúcia Torre, Pedro Bial e Cauã Martins.

Alô, criançada (e mulherada)! O Bingo chegou!

O palhaço é uma figura curiosa. Está presente no circo, nas festas de criança e também nos filmes de terror. Pessoalmente sempre tive receio de qualquer pessoa que esteja interpretando um. Não sei se pelas enérgicas expressões corporais, as maquiagens carregadas, as risadas excêntricas ou mesmo as abordagens para com o interlocutor. Enfim, não são todos que são acometidos por esse medo assim como eu, portanto, o que vem a seguir é algo que nunca pensei que fosse dizer, sentir. Pela primeira vez na minha vida quis ver mais do palhaço em cena. E o responsável por isso é o Bingo. Ou o Vladimir Brichta. Ou o diretor Daniel Rezende. A única certeza é de que Bingo: O Rei das Manhãs é um daqueles filmes inerente ao sucesso e impossível de não gostar. Sua narrativa consegue sintetizar a loucura que foi a década de 80 com seus exageros, extravagâncias, amores, sexualidade e o politicamente incorreto, em apenas um personagem, propondo um prazeroso estudo do mesmo. Uma mistura de ficção com realidade, que resulta na jornada de um legítimo anti-herói em busca dos holofotes.

Livremente inspirado na vida de Arlindo Barreto, o primeiro interprete do palhaço Bozo, a trama conta a história de Augusto Mendes (Brichta), um ator de pornochanchadas cuja vida muda radicalmente após passar num teste para viver o palhaço Bingo e assim assumir um programa matinal transmitido cinco vezes por semana. O protagonista não recebe a alcunha por acaso. O nome Augusto remete ao tipo de palhaço mais conhecido no Brasil. É extravagante, absurdo, pícaro, mentiroso, surpreendente, provocador, livre e anárquico. Todas essas característica estão presentes, e o ator Vladimir Brichta demonstra entender cada uma delas para compor o complexo personagem. O elenco está fantástico (Ana Lúcia Torre, Leandra Leal, o garoto Cauã Martins), no entanto é o ator quem transforma Bingo num tipo admirável, na linha do ame-o e odeie-o. Com ou sem a ‘máscara’ ele entrega emoção, energia, enfileira frases de efeito e dá o toque final exibindo uma capacidade sensacional para o humor físico. Porém, “De que adiante ser o Bingo se ninguém mais pode saber?”.

Esse duro questionamento feito pelo filho Gabriel (Martins), unica pessoa além da mãe por quem Augusto nutre um amor tangível -construído ao longo da trama de maneira orgânica e sem pieguices, vem como um soco direto no estomago. A partir daí a narrativa, que mesmo já vindo numa crescente, mergulha numa discussão muito mais triste, abraçando o lado sombrio dele. Como um camaleão, Brichta muda completamente o tom de sua atuação. A irreverência e a alegria dão lugar a uma vida de prazeres fáceis e sem limites. Suas relações também mudam. Até mesmo o clichê de ‘esquecer uma data importante’ recebe contornos dramáticos. Em meio a essas várias mudanças o filme jamais se perde e conta com a ajuda de aspectos técnicos para manter-se coerente e maravilhar o espectador. Um deles é a montagem. A alternância entre planos ocorre com fluidez e respeita o ritmo. Ora lento e deprimido, ora ágil e cheio de vida. O figurino, em sintonia com o estado emocional do protagonista é outro que passa por transformações. Comparecer a um culto vestindo preto não é lá muito casual.

A trilha sonora, recheada de hits dos anos 80 termina sendo mais um elemento de função relevante, pois transporta o público para aquele período. Entretanto, é a direção de Daniel Rezende que chama a atenção. Vencedor do Bafta de Melhor Montagem por seu trabalho em Cidade de Deus, logo em sua primeira experiência atrás das câmeras arquiteta um universo sólido ao passo que demonstra habilidade para manipulá-lo. Desde planos onde vemos o distanciamento emocional de Augusto e Gabriel simbolizado por uma simples variação de foco, até enquadramentos mais elaborados, quando por exemplo, a mãe de Augusto, uma renomada atriz que caiu no ostracismo, encara um enorme retrato dela mais jovem no auge do sucesso e o mesmo encontra-se iluminado enquanto ela não. Uma bela metáfora que remete a um passado sob os holofotes contrastando com um presente sem luz. O diretor nos surpreende ainda com duas situações de subjetividade mental bem impactantes, e que por alguns segundos obrigam o público a questionar a veracidade do que está acontecendo. 

Bingo: O Rei das Manhãs é mais uma manifestação da qualidade do cinema nacional. Usando de licença poética para ‘viajar’ sem ofender, apresenta uma narrativa cheia de vida, cores fortes, divertimento e muita safadeza. Entende perfeitamente onde quer chegar e a história que deseja contar. Desse modo nos leva sem muito esforço para seu mundo, despertando em nós uma vontade absurda de permanecer por lá para assistir muito mais do palhaço que nasceu para ser mariposa em meio a tantas formigas e cigarras. O anti-herói das crianças não é brincadeira não, viu?!

NOTA: 9

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O Filme da Minha Vida

Direção de Selton Mello. Com Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Vicent Cassel, Selton Mello, Bia Arantes, Rolando Boldrin, Ondina Clais e João Prates.

Amor em meio a melancolia

Entre comédias escrachadas de gosto duvidoso estreladas por Leandro HassumPaulo Gustavo e cia. e filmes onde crimes e favelas são o centro das atenções, damos de cara com algumas produções de menor orçamento e sem tanto apelo midiático, porém, que trazem consigo valores grandiosos e uma ambição gigantesca quando se trata de entregar ao público brasileiro algo completamente diferente do que ele está acostumado a ver, falando pelo menos nos cinemas convencionais. É por conta dessa carência de conteúdo fora do comum, que inspiram e trabalham bem com vários aspectos da sétima arte que O Filme da Minha Vida surge como uma obra que, apesar de problemas pontuais, salta aos olhos. O terceiro longa-metragem de Selton Mello (antes vieram Feliz Natal, 2008 e O Palhaço, 2011) é um filme que requer atenção, paciência e não só precisa, como merece ser degustado. Narrado de maneira poética, preocupa-se em incomodar o ‘espectador’ com sua melancolia e nostalgia.

Baseado no livro Un Padre de Película, de Antônio Skármeta, a trama conta a história de Tony Terranova (Massaro), filho de pai francês e mãe brasileira e como ele mesmo diz no início do filme “dormir não é algo que ele faz muito bem”. Quando volta para casa após uma temporada de estudos na capital, o professor Tony tem de encarar a lacuna deixada pela partida sem explicações do Pai, Nicolas (Cassel), que segundo Paco (Mello), amigo da família, é um homem do mundo e que voltará quando quiser voltar. Personagens ricos em personalidade, alguns frustrados, outros sonhadores, mas todos repletos de vontades que vão além do trivial. Ainda que o foco esteja na relação pai/filho, nenhuma figura deixa de receber a devida atenção graças a direção observadora e precisa de Selton Mello, que entende a importância de todos os personagens e o drama no qual cada um está inserido. Em troca recebe de todo o elenco atuações eficientes, que correspondem rapidamente ao que são exigidos.

Em plena sinergia com o material humano, o realizador ganha o suporte de outros aspectos técnicos bem executados. Ambientado no Rio Grande do Sul, a narrativa traz uma fotografia coerente com a fictícia cidade de Remanso. O frio é sentido pelo design de figurino, mas aquele calorzinho do sol de inverno se torna crível devido a excelente fotografia exibida. O tom sépia e a paleta de cores saturadas são elementos importantíssimos para destacar a época do filme, no caso, os anos 50, e principais responsáveis em transmitir a melancólica e o clima de nostalgia para o espectador. Além do visual, a trilha sonora, com suas belas canções francesas e algumas populares brasileiras, faz questão de facilitar a entrada naquela na atmosfera bucólica. A montagem, outro artifício encarregado de mover a narrativa contribui de maneira mais tímida, em certos momentos prejudicando o desenvolvimento. As rimas visuais são sutilmente charmosas, em contrapartida os flashbacks cansam e ferem o ritmo.

Contando com um roteiro bem amarrado escrito por Selton Mello em parceria com Marcelo Vindicato, O Filme da Minha Vida usa da licença poética da qual se baseia para apresentar um argumento de diálogos reflexivos, muitos deles provocados por perguntas simples, mas com respostas complexas (“Por que  o senhor considera seu trabalho nobre?/ Porque é bom saber que estou levando as pessoas para fazer algo“, pergunta Tony ao maquinista que responde com um orgulho admirável.) Embora algumas conversas resultem até mesmo num inesperado momento de graça, a grande maioria delas são pausadas e aí entra a paciência a qual já fiz menção. Não há dinâmica entre os atores, apesar da química entre os mesmos. Todo diálogo parece durar uma eternidade em prol de um final filosófico. Somado a essa sofrência, a trama tem uma reviravolta digna de novelão, que apesar de manter a coesão da narrativa soa meio que exagerada. Um filme demasiado poético, as vezes árduo, mas que se faz necessário em meio a tantas besteiras que a gente vê por aí. É tudo uma questão de treinar nosso olhar para receber melhor o diferente.

NOTA: 7,5

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Planeta dos Macacos: A Guerra – (War for the Planet of the Apes)

Direção de Matt Reeves. Com Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Karin Konoval, Amiah Miller, Toby Kebbell e Gabriel Chavarria.

Macacos mais humanos do que o próprio homem

Tudo começou com A Origem, na sequencia tivemos O Confronto e agora a franquia Planeta dos Macacos encerra sua bem sucedida trilogia com A Guerra. Uma guerra na qual os símios estão, não para dominar o planeta, mas sim para lutar pela sobrevivência de sua espécie. E lutar não significa necessariamente ir a combate. Aqui, significa buscar um lugar ao sol, onde possa se cumprir o direito de viver em paz. Destacando esse ponto, é inevitável que o filme pode gerar certo desapontamento daqueles que esperam a mesma ação dos antecessores. Criou-se a expectativa de ver um um embate grandioso entre humanos (que se mostram cada vez mais ignorantes) x macacos (que se mostram cada vez mais inteligentes), porém, a real intenção vai muito além do clichê da ação. Com um desenvolvimento mais lento -sem nenhum demérito, Planeta dos Macacos: A Guerra convida o público a refletir sobre sua narrativa. Um filme que prioriza os relacionamentos, reforçando o choque e causando impacto.

Na trama, após sofrerem inúmeras perdas durante uma batalha contra o exército liderado por um impiedoso Coronel (Harrelson), os macacos decidem partir em busca de um lugar além das montanhas, onde possam viver sem medo. No entanto, Ceasar (Serkis) escolhe ficar para fazer justiça e, acompanhado por outros companheiros, vai atrás do carrasco a fim de colocar um ponto final na guerra entre homens e macacos. Mais drama. Menos ação. Só por conta dessa ambiciosa inversão de expectativa Planeta dos Macacos: A Guerra já mereceria ser visto. Enquanto todos esperavam (e ansiavam) por uma sangrenta luta, o filme entrega agradavelmente um drama repleto de momentos comoventes. Preocupado em discutir o vínculo dos macacos com profundidade, a narrativa é capaz de extrair organicamente uma emoção palpável desse núcleo, estabelecendo uma conexão maior com o espectador, que por sua vez, compreende as motivações deles e renega as dos humanos devido a sua brutalidade.

Mas a empatia com o filme não está ligada somente ao sucesso desse argumento. Além de dar sequencia aos fatos de maneira coerente e organizada, resultando numa trilogia bem estruturada com começo, meio e fim, A Guerra ganha ainda mais força graças a evolução da tecnologia. São raras as cenas em que é possível constatar a presença dos efeitos visuais. Ao longo da narrativa os símios soam natural, desde os pelos até o comportamento físico. Um trabalho feito com muito esmero, cuja relevância é sentida também por outro trabalho: o de Andy SerkisO ator britânico, conhecido por ser a pessoa por trás de algumas figuras do cinema (Gollum e King Kong, por exemplo), encarna o líder dos macacos pela terceira vez, no entanto, nessa última, a atuação pede um esforço ainda maior, pois os sentimentos do personagem, principalmente seus conflitos e pertubações, necessitam ser humanizados. Serkis dá conta e confirma através do olhar cansado, raivoso, e por vezes cheio de lágrimas o ótimo ator que é.

Calcado no show de interpretação de Serkis, A Guerra conta também com uma poderosa atuação de Woody Harrelson. O ator oferece um antagonista à altura de Ceasar, conferindo ao seu Coronel um tom ameaçador que assusta ainda mais devido a tranquilidade com que faz suas barbaridades. E apesar de todas as ignorantes motivações dele, inclusive uma revelação chocante  durante um diálogo com o rival, é impossível não admirá-lo como personagem. Dirigido por Matt Reeves (Deixe-me Entrar, 2010), e escrito por Mark Bomback em parceria com o próprio Reeves, a produção termina sendo um dos blockbusters de ficção científica mais bem arrojados dos últimos anos, isso sem precisar apelar para uma ação descabida. O longa entende o que foi feito e sabe a importância de cada capítulo, portanto sente-se livre para contar uma história além do trivial, que fala sobre escravidão, preconceito e da humanidade em geral com doses de sensibilidade e crueldade, superando assim as expectativas e concluindo a trilogia com mais uma vitória.

NOTA: 8,5

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Dunkirk

Direção de Christopher Nolan. Com Fionn Whitehead, Tom Hardy, Harry Styles, Aneurin Barnard, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Cillian Murphy e Kenneth Branagh.

Como me sinto quando só eu não achei o filme tudo isso

Nas mãos de outro diretor, Dunkirk correria sério risco de ser apenas mais um filme de guerra. Talvez um dos bons, mas tenho certeza de que a narrativa seguiria por outro caminho, focando numa romantização dos personagens e apelo emocional (típico de Spielberg), ou na ação, por meio de combates coreografados, cheios de cortes e sangue pra todo o lado (típico de Mel Gibson). Para a felicidade de todos o projeto foi pensado e comandado por uma pessoa, a qual a gente aprendeu a confiar, afinal, ‘In Nolan We Trust’. O diretor anglo-americano, que de tão cerebral algumas vezes se perde em sua própria complexidade (Interestelar prova isso), em Dunkirk surge mais intimista, porém não menos ambicioso e sagaz. Usando do seu conhecido estilo não-linear de narração, Nolan faz da história de guerra, onde a maior vitória foi sobreviver, um tenso quebra-cabeças, cuja as peças vão se encaixando com fluidez, e ao lado do maestro Hans Zimmer, do montador Lee Smith e do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema entrega uma obra tecnicamente impecável, facilmente admirada plano a plano.

Durante a Segunda Guerra Mundial, soldados franceses e britânicos, sem força para resistirem, são encurralados na região francesa de Dunkirk após o avanço das tropas nazistas. Numa notável operação de risco, também conhecida como Operação Dínamo, mais de 300.000 soldados aliados foram evacuados da ilha, sob ameaças constantes por terra e mar, até a cidade inglesa de Dover, graças a ajuda do exercito e de civis. Um dos grandes méritos da produção está no modo como Nolan constrói sua narrativa. Guerras não possuem apenas um ponto de vista, elas são testemunhadas por incontáveis par de olhos, e o diretor não só demonstra entender muito bem essa questão, como também enxerga nela a possibilidade de empregar sua marca, que é justamente ‘brincar’ com a cronologia, dessa vez de uma maneira menos didática. Em Dunkirk, ele separa a narrativa por ambientes diferentes (molhe, mar e ar), em tempos diferentes (semana, dia e hora) e com ‘protagonistas’ diferentes. Por meio desse artifício, o argumento enriquece a experiência e a jornada soa muito mais envolvente.

Beleza plano a plano

Mas para o roteiro engenhoso de Nolan funcionar é preciso alguém capaz de montar conforme o diretor imaginou, e essa coerência é sentida graças ao ótimo trabalho de Lee Smith, responsável por montar o filme de uma forma que não quebre o ritmo e ainda seja fácil para o público de acompanhar o desenvolvimento e estabelecer com facilidade o tempo em que as situações estão ocorrendo. A mesma importância deve ser dada ao trabalho de Van Hoytema e a configuração de seus planos abertos, que justificam a necessidade de Dunkirk em ser visto numa tela IMAX ou no mínimo maior do que as das salas convencionais. São inúmeros planos que poderiam ser emoldurados e colocados para exposição num museu, falando apenas da questão estética, pois como parte da narrativa também cumprem uma função dramática com êxito, delineando com precisão os ambientes e realçando a solidão e o clima hostil que aqueles que estão em terra enfrentam ao se verem cercados, aparentemente sem saída e sob a condição de sofrerem um ataque a qualquer instante sem saber de onde.

E se o filme pede para ser assistido na maior tela que você possa encontrar, é indispensável também que o espectador o assista numa sala que possa oferecer o som de melhor qualidade e o mais potente possível, já que este é sem sombra de dúvidas o ponto alto da obra. O músico Hans Zimmer comanda uma ‘orquestra’ que não descansa um minuto sequer, e que se encarrega de criar a tensão e mantê-la durante toda a narrativa. Ainda de maneira harmoniosa, Zimmer fabrica uma conexão maravilhosa entre a trilha sonora -não-diegética, e a sonoridade diegética, fazendo com que os barulhos causados através do impacto dos tiros e bombas soem ritmados e funcionem cada qual como instrumentos distintos da sinfonia composta pelo maestro, juntamente com os incumbidos do design de som. Bem executado do jeito que é, o som torna a experiência muito mais sensitiva e descomplicada a imersão. No entanto, apesar do visual primoroso, o som arrebatador e a montagem certeira, Dunkirk ‘apenas’ impressiona, não sendo capaz de evocar emoção daquela tragédia.

Para essa ausência de comoção existem quatro explicações: elenco, diálogos, a história e adivinha o quê mais? Sim, o próprio Christopher Nolan. O elenco é bem misturado. Existem nele muitas caras novas e outras muito conhecidas. BranaghRylance e Hardy servem de sustentação para os novatos, com este último entregando mais uma atuação consistente somente com o olhar. Já os mais jovens ostentam interpretações regulares, e por não terem tanta bagagem para carregar um filme apenas na troca de olhares, precisariam de diálogos, que por sua vez estão em pequena quantidade no roteiro, e os que estão nele não tem a qualidade requisitada. Com relação a história, a falta de referência ou conhecimento do contexto sobre esse episódio prejudica a experiência. Conquistar um espectador não-europeu que nunca ouviu falar de Dunkirk é uma missão árdua, porém, poderia ter sido corrigida por Nolan, caso ele desse profundidade aos seus heróis. E olha que nem as câmeras subjetivas resolveram esse problema. Visualmente cativante e tecnicamente perfeito, falta ao filme coração.

NOTA: 8/10

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