O Passageiro – (The Commuter)

Direção de Jaume Collet-Serra. Com Liam Neeson, Vera Farmiga, Patrick Wilson, Sam Neill e Jonathan Banks.

65 anos nas costas e se divertindo como jovem nos filmes de ação

Michael MacCauley (Neeson), um vendedor de seguros, classe média-baixa, paizão de família, que exala comprometimento é obrigado a pegar o metrô todos os dias para ir e voltar do trabalho. Numa dessas viagens é abordado gentilmente por uma misteriosa mulher chamada Joanna (Farmiga), que entre uma conversa e outra sobre psicologia lhe propõe uma ‘caça ao tesouro’, cujo objetivo é encontrar um passageiro que não deveria estar no trem. Talvez em outro dia ele não aceitasse a proposta, mas o fato de horas antes ter sido avisado sobre sua demissão o coloca à força num jogo em busca da recompensa de R$ 100 mil reais.

Dar a Liam Neeson características de homem comum, ameaçá-lo e colocá-lo contra à parede tem se mostrado uma fórmula certeira de entreter e arrecadar uma grana fácil nas bilheterias. O espanhol Jaume Collet-Serra sabe tão bem disso, que convoca o irlandês de 1,93m, e agora 65 anos, para mais uma empreitada alucinante, onde o tempo, mais uma vez, é fundamental para a narrativa, assim como o local onde ela acontece. O diretor aposta no que já deu certo em Sem Escalas (2014), e nessa quarta vez ao lado de Neeson (filmaram também Desconhecido, 2011 e Noite Sem Fim, 2015), mantém o estilo envolvente de filmar e com isso consegue entregar um entretenimento eficiente, no entanto, sofre com a pouca originalidade, que resulta em previsibilidade, além das inevitáveis semelhanças com o passado.

A narrativa abre com uma sequencia de planos bem sucedidos cujo objetivo é estabelecer a rotina do protagonista. Aliado ferrenho do diretor, tanto quanto o próprio Liam Neeson, o Tempo e alguns dos artifícios usados para ilustrá-lo como, por exemplo, as horas, as estações do ano, a temperatura e o humor dos personagens, são expostos por Collet-Serra de maneira muito criativa com o auxílio de uma montagem ágil e muito coerente, ainda que seja uma ferramenta já vista em outras películas. Aqui, ele conta em pouco menos de 5 minutos sobre o cotidiano de um homem comum, desiludido, mas dedicado à família e ao trabalho, mesmo que esse seja considerado fora dos padrões do qual ele sonha. Um meio inteligente de contar uma história sem a necessidade de apelar para uma exposição excessiva.

Determinada a personalidade e como aquele homem vive o dia a dia, a narrativa começa sua jornada abordo de um trem, o que também é um ponto incômodo que atesta a falta de inventividade do roteiro escrito por Ryan Engle. O roteirista foi um dos responsáveis por escrever o argumento de Sem Escalas, e apenas fez o favor de substituir o avião -ambientação daquele filme, por um trem. Levando em conta que em ambas as situações o protagonista estaria sob risco, o que se esperava em O Passageiro era que pelo menos o perigo e o desafio fossem em maior escala. A premissa aponta para isso, mas o desenrolar vai na contramão.

Se a mala ficar presa para fora do trem, chame o Liam Neeson!

Mesmo com a narrativa tão ágil quanto o trem em que ela ocorre, o segundo ato do longa alterna entre bons e maus momentos. Ponto positivo para a entrega de Liam Neeson para com o protagonista, que ganha a confiança do espectador com mais uma interpretação vigorosa. Vê-lo executando as várias cenas de ação propostas é um enorme prazer. Todas as sequências são bem coreografadas e muito movimentadas, e ainda que exageradas em certos momentos, conseguem tirar o fôlego daqueles que estão assistindo, que por sua vez compram a ideia entendendo-as como parte do show. Quando exigido no drama, o filme sente o peso de não ter alguém para confrontar o ator principal, cujo comprometimento é ressaltado pelo semblante expressivo e a voz marcante.

Embora seja peça chave para o ‘start’ no desenvolvimento da narrativa, Vera Farmiga aparece pouco e pelo currículo dela merecia mais espaço. Patrick Wilson, Sam Neill e Jonathan Banks são tratados como coadjuvantes de filme B que também poderiam render mais, porém receberam a ingrata missão de viverem figuras insignificantes e mergulhadas em clichês. Outro ponto negativo da produção está relacionado à tensão não corresponder ao tamanho do perigo apresentado. Por várias vezes existem paradas indesejadas para diálogos pouco inspirados, ao passo que é possível sentir a ausência de uma trilha sonora capaz de evocar o mínimo de ameaça ou qualquer tipo de contratempo.

Além disso, o clima de investigação também deixa a desejar, ainda mais quando comparado ao Assassinado no Expresso do Oriente. Embora carregue consigo hábitos de homem banal, o protagonista é um ex-policial, e partir do momento que isso fica explícito, a narrativa deveria explorar mais dele, indo além das habilidades especiais para lutar. Como já disse, Neeson transmite segurança e sua determinação em querer resolver o problema é palpável, contudo, seu senso de investigação é ignorado pelo roteiro e as únicas atitudes tomadas a fim de consertar as coisas terminam por serem atitudes completamente triviais, passíveis de execução por qualquer um com um instinto de sobrevivência aflorado.

Toda essa falta de engenhosidade do roteiro culmina num desfecho pra lá de absurdo, que devemos ressaltar, para o bem e para o mal. Apesar dos efeitos especiais limitados, a construção do ato final em termos de energia é feita com bastante competência. A montagem mais uma vez trabalha bem e mesmo com tantos cortes o espectador não perde o foco. Para o mal, fica o previsível. Aguardávamos por uma daquelas plot twists de bagunçar a cabeça, em troca recebemos um encerramento, não esperado, mas que foi se desenhando durante a narrativa. O Passageiro conta com um ator comprometido e um diretor disposto a divertir. Só que a história batida e sem novidades não permitem ao filme ser mais do que ele anunciava.

NOTA: 6,5

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Liga da Justiça – (Justice League)

Direção de Zack Snyder. Com Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, J.K. Simmons, Connie Nielsen, Ciarán Hinds, Amber Heard e Joe Morton.

Olhando para o horizonte até que ele parece promissor

Mulher-Maravilha foi o primeiro passo criativo para os novos tempos da DC. Envolvente e com uma temática que vai além do heroísmo, a produção representa um marco por diversos fatores, entre eles apostar numa mulher para ser a dona da história (em outros tempos talvez ela fosse renegada a uma simples coadjuvante), ao passo que traz para comandar a narrativa uma outra mulher, disposta a mudar as regras do ‘jogo dos homens’. Meu medo era que esse passo adiante não fosse capaz de influenciar positivamente a Liga da Justiça, que mesmo antes de nascer já tinha vários problemas. Bom, após uma sessão de 2h+duas ótimas cenas pós-créditos -coisa que a Marvel não é capaz de fazer há um bom tempo, a sensação é de que ainda existe muita coisa a ser feita para que o universo da DC chegue perto da coerência do rival, no entanto, Liga da Justiça consegue surpreender até mesmo os mais pessimistas que esperavam uma tragédia anunciada. A reunião dos heróis mais fortes do planeta corre contra o tempo para mostrar sua importância ao público, e na pressa tropeça -feio em alguns momentos, mas também acerta e por vezes entrega que dela se espera: narrativa ágil, combates contundentes, diálogos descontraídos, uma dose de emoção e diversão.

Com a morte do Superman/Clark Kent (Cavill), seguindo os acontecimentos de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, a terra parece um lugar sem lei, sem esperança e sem super heróis. Indefesa, ela se vê ameaçada por um novo intruso: o Lobo da Estepe, que surge para reunir as três caixas maternas, fonte de poderes imensuráveis, e assim estabelecer o caos no universo. Ciente da ameaça, Batman/Bruce Wayne (Affleck) resolve montar um time para combater o inimigo. Mulher-Maravilha/Diana (Gadot), Ciborgue/Victor Stone (Fisher), Aquaman/Arthur Curry (Momoa) e Flash/Barry Allen (Miller) juntam-se ao Homem-Morcego para formar a Liga da Justiça que tentará deter vilão. 

A trama sente o peso de não ter apresentado todos seus integrantes em filmes solos e demonstra certa bagunça na necessidade de mostrar todos de uma vez. Além de problemas internos, a produção teve que se virar com a perda do contestado Zack Snyder. O diretor, devido circunstâncias pessoais saiu, em seu lugar entrou Joss Whedon (Os Vingadores, 2012), que apesar de fazer questão de dizer que não mexeu muito no material, fica claro em poucos minutos a grande contribuição dele. Com tantos ‘contras’ o que vemos logo de cara é uma enxurrada de cortes bruscos, uma montagem sem ritmo e um sentimento de que a decepção se confirmaria. A primeira parte do filme, que tinha tudo para ser agradável e curiosa, por conta do encontro de heróis que acabavam de se conhecer, soa episódica e sem lógica. Desordenado em seu primeiro ato, na correria para fazer com que o público simpatize com os novos personagens, após se juntarem a coisa começa a funcionar, e se não temos a Liga da Justiça das HQs ao menos, no segundo ato, temos um time entrosado, no qual a dinâmica funciona de maneira eficiente e prazerosa.

Going out with the gang

Um esboço do que poderia ser, mas que demonstra ser capaz de entreter a audiência com um tom mais leve, gracejos e mais vida para uma sequência direta de um filme que se orgulhava do tom sombrio e pesado, além de uma narrativa exaustiva. Enfim, um alívio em meio a tanta pertubação. Affleck acompanha o estilo da nova narrativa e se apresenta mais confortável no traje do morcego, menos sisudo e disposto a sair de cena mais bem humorado. Gadot retorna com a mesma altivez, alternando entre a elegância de Diana e a força da Mulher-Maravilha, e também compondo uma relação atraente junto ao Batman, sem jamais se deixar levar para o lado sexual, ainda que o mesmo esteja implícito em alguns momentos. Miller dá vida a um Flash fora de contexto. Responsável por grande parte das piadas do filme, aos poucos suas caras e bocas viram frequentes e o que era para ser engraçado termina sendo forçado. Gostaria de ver mais do Ciborgue de Fisher. Ele é complexo, mas sua concepção artificial demais torna-se uma distração. Quanto ao Aquaman de Momoa, ta aí um herói no qual podemos depositar esperança. Cheio de marra, o bad boy exibe motivações que parecem plausíveis.

No entanto, o grande momento de Liga da Justiça fica por conta do Superman (não é nenhuma spoiler saber que ele estará no filme). O ressurgimento do filho de Krypton é impactante, e Cavill finalmente incorpora o super herói que desde o primeiro filme esperávamos que ele fosse. Implacável e aparentemente mais forte do que já era, chega para fornecer ainda mais entretenimento e aprimorar a dinâmica do grupo. Sua volta é tão bem acertada, que até mesmo Lois Lane (Adams) e Martha Kent (Lane) se tornam mais relevantes para a narrativa nas suas interações com o alienígena, entregando cenas emocionantes para os padrões dos heróis. E se a terceira parte traz consigo essa virada significativa, traz também um desfecho sem grandes surpresas. Uma luta convencional, com toque de humor, porém contra um vilão que extrapola as barreiras do genérico. O ator Ciarán Hinds mal pode ser visto em meio a tantos efeitos especiais, responsáveis por criar um Lobo da Estepe de voz cartunesca, com uma movimentação de video game e uma justificativa pra lá de batida. E sem um vilão à altura da Liga, o trabalho deles tem menos valor.

Dirigido por Zack Snyder e finalizado por Joss Whedon, Liga da Justiça é um filme ágil que manifesta bons e maus momentos, que vivem se anulando, mas que no final representam um aquecimento para o futuro. Sua trilha sonora é interessante, evocando os temas de cada personagem, mas sem entregá-los por total. Embora o Flash seja um pouco afetado, o humor no geral é satisfatório, assim as cenas de ação, que exibem lutas bem executadas, vide o confronto em Temiscira entre as Amazonas e o Lobo da Estepe. E embora tenha um primeiro encontro não muito natural, o diálogo funciona quando estão juntos e isso é um indício de que no futuro as coisas podem melhorar. As cenas pós-créditos também nos levam a crer nesse aperfeiçoamento. A tarefa de entreter o público é cumprida com ressalvas.

NOTA: 6.5

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Thor: Ragnarok

Direção de Taika Waititi. Com Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Tom Hiddleston, Tessa Thompson, Cate Blanchett, Jeff Goldblum, Idris Elba, Karl Urban, Anthony Hopkins, Benedict Cumbertbatch e Taika Waititi.

Extensão do bromance é só uma das qualidades do longa

Goste ou não, a estrutura dos filmes da Marvel será sempre a mesma, pelo menos até a conclusão da Fase Três com a segunda parte de Guerra Infinita. O próprio Kevin Feige já disse que esse é o jeito do estúdio, e se o público está gostando, porque mudar? A questão é que, com o passar do tempo, os filmes começaram a dar sinais de desgaste, e se durante uma sessão leve -de quase duas horas- vendo seus heróis favoritos a diversão era garantida, após deixar o cinema as lembranças tornavam-se facilmente esquecíveis. Tive essa sensação a cada nova experiência, mas só ficou evidente depois que vi Doutor Estranho, o último filme da Marvel em 2016, e as suas semelhanças com o Homem de Ferro. Bom, o certo é que o estúdio também parece ter percebido o cansaço, o que fez com que 2017 fosse muito mais audacioso. Em abril, Guardiões Vol.2. Em julho, Homem Aranha: De Volta ao Lar. E agora para fechar o ano marvelístico a surpresa Thor: Ragnarok, que comandado pelo excêntrico Taika Waititi, não é só o melhor filme da franquia como ainda se revela um dos filmes mais ousados do universo. Uma comédia assumida, com senso de humor agradável, cenário coloridíssimo e um elenco de peso, que tenta driblar, com estilo, a fadiga.

Após uma travessia malsucedida até Asgard, Thor (Hemsworth) vai parar em Sakaar, um planeta desconhecido onde é feito prisioneiro pelo extravagante Grão-Mestre (Goldblum). Lá, ele é feito escravo e obrigado a enfrentar o campeão de um torneio entre gladiadores: ninguém menos do que Hulk (Ruffalo), com quem ele nunca teve uma relação amigável. O Deus do Trovão tem que lutar para sobreviver e correr contra o tempo para formar uma equipe de ‘Vingadores’ a fim de impedir que a poderosa Hela (Blanchett) destrua Asgard e dessa forma cumpra a profecia do Ragnarok. Todos sabem que o filho de Odin sempre foi meio sisudo. Nos medianos Thor (2011) e Thor: O Mundo Sombrio (2013) essa característica fica bem clara. Mas as expressões antiquadas e a seriedade no olhar foram postas de lado. Nesse terceiro filme, a narrativa abraça o humor e o humor abraça o asgardiano. Uma mudança brusca que ignora o passado do protagonista e de outros personagens, soando incoerente se olharmos para o todo, porém, se analisada individualmente cumpre bem aquilo que se propõe a fazer. Seguindo a vibe de Guardiões de não se levar a sério, o longa reúne um time de peso, hábil fisicamente e também com plenos poderes sobre o humor.

Chris Hemsworth, pela primeira vez, demonstra estar a vontade no papel. Bem na comédia, seu protagonista que era um dos menos carismáticos entre os Vingadores, ganha mais relevância e polivalência para as próximas dinâmicas de grupo. Ruffalo é outro que abandona o jeitão sério do cientista para fazer do Dr. Banner um tipo desajustado e indeciso (o qual lembra muito o Clark Kent de Christopher Reeve), e de seu Hulk um monstro verde bobão, inconsequente e engraçado, completamente diferente do raivoso de outrora, mas ainda assim fascinante. Hiddleston muda pouco. Continua o mesmo traíra de sempre, só que menos vilão e mais anti-herói, o que colabora para manter a elegância obscura do personagem. Tessa Thompson como Valkiria é quem tem o arco dramático mais interessante, com motivações palpáveis, e por isso desperta grande empatia do espectador. Goldblum interpreta Goldblum. O exótico Grão-Mestre é uma figura magnética em cena, com seus monólogos desconexos e o jocoso tom cordial de fazer piada. Por ultimo, Korg. Dublado pelo diretor Taika Waititi, desponta como o coadjuvante mais simpático, o qual gostamos logo de cara pela sua simplicidade, as piadas pontuais e o cativante senso de justiça.

Não pense que esqueci de Cate Blanchett. A atriz compõe uma Hela com motivações que já conhecemos, embora nunca pareça afetada. Vilã típica dos quadrinhos, tem seus trejeitos peculiares e é capaz de representar uma forte ameaça na trama (despedaçar o Mjolnir não é pouca coisa), mas é prejudicada pelas poucas cenas, um equívoco ocasionado pelo roteiro, que enxerga Sakaar como sendo mais importante que Asgard, lugar onde ela se encontra o tempo todo. Ainda assim é curioso ver como as personagens femininas ganharam merecida importância na narrativa. Hela e Valkiria são independentes, tem poder e jamais se rendem a fúteis casos amorosos. Roteirizado por Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost, todos envolvidos com produções de desenhos animados, o que explica entre outras coisas a agilidade dos diálogos, e dirigido pelo neo-zelandês Taika Waititi (O que Fazemos nas Sombras, 2014), que imprime uma comédia simples e objetiva, Thor: Ragnarok bom humor à embates bem elaborados configurados por ótimos efeitos especiais. Uma produção de ritmo acelerado, uma trilha sonora tecno-pop anos 70 que leva o público a viajar pelo espaço sem muito esforço, além de uma ambientação estilosa em total sintonia com a proposta.

NOTA: 8,5

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Blade Runner 2049

Direção de Denis Villeneuve. Com Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Dave Bautista, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Mackenzie Davis, Hiam Abbass e Barkhad Abdi.

A fotografia de Roger Deakins rende quadros maravilhosos

Estreia de Blade Runner 2049, sequência de Blade Runner (O Caçador de Androides por aqui), fracasso de bilheteria que depois viria a se tornar cult. Sala praticamente vazia mesmo depois do marketing pesado, e de um elenco e realizadores consagrados. Então qual o motivo de tantos assentos desocupados? Sequencias costumam gerar desconfiança, mas creio que não é uma boa desculpa. A resposta mais plausível é: o filme deveria ser, mas não é para qualquer um.  Assim como o antecessor, sugere ação, e até exibe algumas cenas mais enérgicas, porém, está longe de ser o foco dos idealizadores. Na verdade, a ação nesse caso é diferente. Sequência de acontecimentos numa narrativa, o ato aqui corresponde a fotografia, a trilha sonora e a uma direção cuidadosamente observadora, que levam o público a uma completa imersão naquele universo distópico de 2049, que parece soar tão real quando pensamos nos caminhos tristes que escolhemos hoje. Grandioso, Blade Runner 2049 conduz o espectador a uma experiência cinematográfica reflexiva e contemplativa. Uma narrativa que não busca saídas fáceis, e que só não atinge o ápice devido a falta de um ‘tears in te rain’.

Durante mais uma missão, cujo objetivo é ‘aposentar’ velhos replicantes, um jovem blade runner chamado K (Gosling) descobre um mistério que esteve enterrado há muito tempo. As pistas achadas o levam ao encontro de Rick Deckard (Ford), um velho caçador de androides que estava desaparecido há 30 anos, e que pode ajudá-lo numa perigosa investigação envolvendo a companhia do cruel Niander Wallace (Leto). Se a Los Angeles distópica de 2019 imaginada por Ridley Scott em Blade Runner já impressionava pela forma como foi construída -ruas escuras e esfumaçadas indicavam a instabilidade do ambiente e o clima quase sempre chuvoso representava com muita eficácia a melancolia de seus inóspitos cidadãos, que pareciam cada vez mais próximos da artificialidade, a atmosfera criada pela direção de Denis Villeneuve, a fotografia majestosa de Roger Deakins e a trilha-sonora aguda do maestro Hans Zimmer na Califórnia de 2049 não só mantém a coerência do primeiro como graças a tecnologia, permite-se ir além do que já foi feito, conferindo ainda mais realidade a um futuro que está longe de ser habitável. O espaço apropriado para discussões mais profundas.

A câmera de Villeneuve nos coloca sempre como testemunhas do caos

Zimmer emprega uma batida firme em momentos decisivos da narrativa, ao passo que sabe orquestrar uma trilha sonora mais calma que lembra àquela de Vangelis, mas que acima de qualquer coisa soa original. Já Deakins, se não levar o Oscar dessa vez apenas confirmará a ausência de conhecimento da academia perante a uma obra que vem sendo genial há anos. O encarregado da fotografia desponta mais expressivo do que nunca, ganhando até mais oportunidades dentro da narrativa para desfilar suas habilidades. De capturas frias em meio a cidade afundada nas sombras, a uma passagem no deserto quente e empoeirado de uma cidade arrasada, Deakins ainda evoca o colorido em raros momentos de satisfação, brincando com cores fortes que exalam esperança e pitadas de humanidade. A harmonia entre 2019 e 2049 é sentida e visivelmente expandida com base no sublime trabalho dele. Municiado por colaborações infalíveis, Villeneuve teve somente que fazer o que vem fazendo desde Incêndio. Subindo um degrau a cada nova produção, o diretor estabelece o suspense com a inteligência de sempre, nos diverte com a tensão e não poupa em mistérios.

Embora conte com o auxílio de um roteiro engenhoso e calculista escrito por Hampton Fancher (Blade Runner, 1982) e Michael Green, e um visual espetacular, o longa carece de atuações inspiradas. Ryan Gosling, interpretando aqui basicamente um Rick Deckard jovem, é sempre um chamariz. Muitos o consideram superestimado e pouco expressivo, mas o fato é que o ator tem presença, e digamos que o papel de replicante, nesse caso, nem exige demais. Robin Wright emula sua personagem de House of Cards, o cabelo, inclusive é igual. Jared Leto é cansativo e seus diálogos de biscoito da sorte não ajudam. Harrison Ford você já conhece e sabe que não pode esperar nada além de muito esforço. Boas mesmo são as meninas do elenco. Figuras complexas, Ana de Armas (Joi) e Sylvia Hoeks (Luv) extraem o que há de melhor em suas personagens. Enquanto uma é um programa de computador que exala motivações humanas, a outra confere uma determinação e obediência genuína de uma máquina, que causam um desconforto muito atraente. E não poderia deixar de fazer uma menção honrosa a Dave Bautista. Em poucos minutos o ator nos faz esquecer do espalhafatoso Drax de Guardiões, com uma atuação comovente, sustentada por um olhar miserável.

Blade Runner 2049 é um ótimo exemplo de como dar continuidade a uma história. A narrativa respeita sua origem em todos os aspectos, e sabe que tem todas as armas para explorar ainda mais sua rica temática. Sinto que o filme abandona erroneamente a emoção, quando poderia usá-la a seu favor, tendo em vista o material que tem nas mãos. No entanto, também sou capaz de entender que a tristeza pode estar naquele mundo devastado, vazio e sombrio, onde ser humano é uma raridade. Blade Runner 2049 não vê suas falhas comprometerem seu desenvolvimento, e ruma para se tornar lá na frente o clássico que o filme de 1982 é para nós atualmente.

NOTA: 9

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It: A Coisa – (It)

Direção de Andy Muschietti. Com Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgard, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert e Stuart Hughes.

‘Hey Georgie, do you wanna a balloon?’

Há 27 anos era lançado diretamente para a televisão americana o filme IT: Uma Obra Prima do Medo. Baseado num livro com mais de 1.000 páginas escrito pelo mestre do terror Stephen King, o telefilme tirou o palhaço Pennywise (ou apenas IT, pois é capaz de assumir várias formas) do papel para assombrar os sonhos dos espectadores. Responsável por dar vida ao personagem, Tim Curry fez da criatura um marco, e entre balões e bueiro conseguiu que muita gente flutuasse com ele. Embora tivesse o palhaço dançarino como centro das atenções, a obra, muito rica em conteúdo, trazia ainda questões controversas que hoje resultariam num belo debate. Que tal uma orgia envolvendo crianças? Abuso sexual? Pois bem, de acordo com a maldição, a Coisa ressurge a cada 27 anos para se alimentar, e sem nenhum atestado de que seja coincidência (1990-2017=27 anos), ela está aqui novamente para provar que o tempo hibernando lhe fez bem. Fiel ao original, mas ciente da necessidade de renovar, IT: A Coisa retorna muito mais envolvente, empenhada em fornecer sustos por meio de um Pennywise mais sinistro e composto por um elenco mirim cheio de carisma e talento.

Na trama, Bill (Lieberher), Ben (Ray Taylor), Beverly (Lillis), Mike (Jacobs), Richie (Wolfhard), Eddie (Dylan Grazer) e Stan (Oleff) formam O Clube dos Perdedores. Ao darem conta de que uma estranha maldição assombra a cidade de Derry, o grupo coloca seus medos à prova para tentar por um fim na desgraça, que pode ser qualquer coisa, mas que aparece na figura de um palhaço que atende pelo nome de Pennywise. Impulsionado pelo sucesso recente de Stranger Things e outros êxitos como E.T: O Extraterrestre (1982) e Os Goonies (1985), o filme apresenta uma narrativa que, embora traga um vilão e o terror como premissa, na verdade volta seu olhar para as crianças e um senso de aventura-dramático que se revela uma escolha muito acertada. Beneficiados por um roteiro preocupado com o desenvolvimento dos personagens, diferente do telefilme de 90, o ótimo elenco infantil dispõe de tempo para trabalhar e quem ganha com isso é o público e a narrativa. O público, porque consegue estabelecer um vinculo emocional com aquelas crianças, e a narrativa, porque pode se aprofundar nas relações e a dinâmica do grupo com naturalidade. 

Agora vamos conversas sobre Pennywise. Do ponto de vista de atuação, Bill Skarsgard já começa assustando pela voz. Ele alterna facilmente entre um timbre infantil para um mais feroz. E o que falar do trabalho visual na cena do bueiro? A pedido do diretor, Skarsgard realiza a façanha aterrorizante de olhar com o olho direito para Georgie enquanto o seu olho esquerdo mira o espectador. No mais, o ator é auxiliado por vários aspectos técnicos como, por exemplo, o excelente trabalho dos efeitos especiais que, além de brincarem com as transformações da Coisa, brindam o público com muitos jump-scares (técnica recorrente em filmes de terror, que consiste em surpreender a plateia com mudanças abruptas de algo ou alguma coisa), os quais são bem executados tecnicamente, mas sem tanto efeito na hora de gerar sustos. E aí está o grande problema do filme: a pouca eficiência na hora de surpreender com bons sustos. Conduzida por uma inquietante trilha sonora, a presença de Pennywise é impactante e incomoda, porém, o espanto não nos atinge com a mesma intensidade, o motivo: os trailers adiantaram quase todas as aparições do demônio, resultando em frustração.

Dirigido por Andy Muschietti (Mama, 2013), homem cuja câmera não poupa em violência, It: A Coisa faz uma releitura interessante sobre o filme original, mas demonstra saber inovar quando preciso. Prova disso é que apesar de compreender a importância de que seu vilão tem na história, o filme não se prende a isso. Ao contrário, apresenta uma narrativa muito mais engajada no desenvolvimento das crianças, a luta contra os seus medos e o amadurecimento delas em meio a uma atmosfera onde até mesmo os adultos chegam a despertar certa fobia. Basta reparar a influência negativa que os pais presentes exercem sobre os filhos. Nenhuma das crianças escapa de ser coagida de alguma maneira, sendo elas, por vezes, pesada. O que nos leva a outra decisão corajosa do roteiro escrito por Cary Fukunaga (Beasts of No Nation, 2015) e Gary Dauberman, que sem receio, discute abertamente temas como incesto, bullying, machismo e racismo, além de outros. Cheio de ritmo, tensão e uma inesperada veia cômica, a produção termina sendo uma das boas surpresas do ano e de um gênero que custa a vender novidades. Recomendo a você permitir-se flutuar.

NOTA: 8,5

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